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Crónicas do narigudo V - O melhor do mundo

Apr 08 , 2015

Crónicas do narigudo V - O melhor do mundo

Já não se conseguem contar pelos dedos de uma mão a infinidade de vinhos nomeados como “o melhor vinho do mundo”. É certo que os portugueses gostam muito deste classificativo, o qual se aplica (com grandes resultados comerciais) aos mais diversos tipos de produtos: é o melhor bolo de chocolate do mundo; o melhor pão do mundo; o melhor peixe do mundo… e por aí em diante. Mas também já seria de esperar um pouco mais de profissionalismo da parte dos nossos órgãos de comunicação social, sobretudo nos dias de hoje, em que a gastronomia e o mundo dos vinhos se tornaram temas de especialização. Os produtores exultam, claro. Pois de facto muitos consumidores acreditam que algo como “o melhor Syrah do mundo” ou “o melhor vinho branco do mundo” pode estar ali à mão de semear, no supermercado ou na loja da esquina.

Como se já não bastasse o mau serviço que é o de transformar o que deveria ser publicidade em “notícia” (o que acontece nos mais bem cotados meios de comunicação nacionais, quando se aborda o tema vinho), disfarçando-se, com conteúdo editorial, a publicidade ao produtor, além disso, ainda se vai mais longe, fazendo-se acreditar que somos ou temos “o melhor de mundo” disto e daquilo.

É claro que os jornalistas, nestes casos, limitam-se a reproduzir press-releases ou comunicados, que recebem do produtor ou da agência de comunicação – sendo este último caso o mais frequente. Apenas se esquecem de contextualizar a “notícia”. Sobretudo quando a mesma favorece interesses comerciais. Reproduzem, ponto. Mas reproduzem, não por que são desprovidos de espírito crítico. Reproduzem porque é negócio. Vende e faz vender.

Muitos são os truques para se ganhar uma distinção num concurso de vinhos. Enumeremos alguns (apenas alguns…). O primeiro truque é concorrer ao máximo número de concursos possível. Independentemente do preço, do prestígio e do local do mesmo, algum prémio se há-de ganhar, caramba. Até pode ser num concurso de vinhos de um qualquer pico dos Himalaias. Se tiver prémio, vende. Se ganhar medalha de ouro, vende. Até mesmo se receber bronze (cuja cor se confunde com o ouro…) é bom na mesma.

Outro truque é “preparar” bem a amostra que se envia. Mesmo que a amostra seja uma coisa e o vinho amanhã no mercado seja outra, o que interessa é ter o prémio. Outro ainda (atenção que aqui já entramos num domínio mais sofisticado…) é conseguir propor um determinado vinho a concurso, numa categoria em que à partida o vinho esteja logo em vantagem. Por exemplo, quando as categorias são de preço, classificá-lo com um preço mais baixo do que aquele que na realidade ele tem. Mas há mais… desde o “preparar” a amostra a preceito, conhecendo o que o jury tende a favorecer (um tanino mais suave ou um vinho mais alcoólico, por exemplo), até conseguir-se que o vinho não seja o primeiro a ser provado, pois todos sabemos que a tendência é sempre para que o provador seja mais exigente com os primeiros vinhos em prova e que à medida que prova outros vinhos ele relativiza mais os seus critérios. Neste caso, uma variante é enviar duas marcas com o mesmo vinho para a mesma prova de concurso.

Enfim, fiquemo-nos por aqui…. Entre a proliferação de concursos e as medalhas de Lubiliana, com provadores de paladar feito à medida, o que vale é que no futebol os critérios são um pouco mais objectivos e aí o nosso ego patriótico pode entrar completamente em êxtase com “o melhor do mundo”. Viva Cristiano!

                                                                                    Ass.: O Narigudo

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