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Vinicultura e alterações climáticas: Parte 1 – reféns ou também cúmplices?

Apr 05 , 2019

Vinicultura e alterações climáticas: Parte 1 – reféns ou também cúmplices?

Quando se fala de alterações climáticas no mundo dos vinhos, fala-se muitas vezes de um ponto de vista externo. Aponta-se a necessidade do mundo dos vinhos se adaptar às mudanças inevitáveis provocadas por uma subida da temperatura média, que pode chegar até 4 a 6 graus até ao final do século, quando comparado com o período pré-industrial. Mas esta realidade é por vezes encarada como algo imposto, algo que a Vinicultura pouco ou nada fez para que acontecesse. Mas será esta aparente ausência ou diminuta culpa verdadeira? Qual o verdadeiro impacto ambiental da produção de vinho? Quão sustentável é esta produção?

De acordo com Rupert Joy, antigo diplomata e colunista de vinhos nas horas vagas, as culpas no cartório causadas pela produção de vinho em termos de impacto ambiental são bem maiores do que a grande maioria pensa. Recentemente o colunista apontou num artigo para o Decanter os problemas existentes, mas não só: olhou também para as soluções que já estão a ser testadas para os resolver.

Cenário Mundial

Para se perceber o impacto da vinicultura, é preciso conhecer o cenário a nível mundial. À medida que a população mundial aumenta, a forma como usamos a terra também se tem vindo a alterar, de forma a satisfazer o crescimento da procura: esta alteração resulta num uso crescente de pesticidas que contribui para a morte de insectos e aves, e ainda uso intensivo de herbicidas e fungicidas que contaminam das águas subterrâneas e degradam os solos.

Se é verdade que a agricultura intensiva de grande escala é geralmente apontada – e bem – como uma grande responsável por perdas sem precedentes de biodiversidade, no entanto, está longe de ser a única com culpas no cartório.

É provável que muitos amantes de vinho pensem que, ao contrário da agricultura intensiva, a produção de vinho tem um impacto reduzido nos ecossistemas. No entanto, a realidade é bem diferente. Porquê? Simples: a maioria das vinhas são monoculturas que dependem fortemente da pulverização de herbicidas, fungicidas e pesticidas para manter à distância doenças e pragas.

Mas nem sempre foi assim. Como explica Steve Wratten, professor da Universidade de Lincoln, na Nova Zelândia, este maior impacto da produção de vinho na destruição das terras e biodiversidade deveu-se a uma alteração de comportamentos por parte dos vinicultores:

“Antigamente a grande maioria dos produtores de vinho saíam mais para as suas vinhas para ver o que estas precisavam e quando. Agora há uma tendência para a prevenção através de pulverizações, o que tem um impacto tanto na saúde humana como ambiental.”

Políticas ‘verdes’

Os perigos relacionados com o uso excessivo de produtos químicos nas vinhas não são propriamente uma descoberta recente. Já em finais do século XX, em 1998, o biólogo francês Claude Bourguignon reconhecia que os terrenos das vinhas de Burgundy estavam “mortos”.

Talvez o facto do problema já ser antigo, ajude a explicar o motivo pelo qual já é possível vislumbrar sinais de mudança: um número cada vez maior de produtores de vinho adopta práticas orgânicas ou biodinâmicas e é raro encontrar um vinicultor francês que não defenda a luta pela racionalização, isto é, o uso moderado de sprays.

Mas claro que a adopção desta nova abordagem, passa por promover uma imagem “verde”. Segundo Liam Steevenson, Master of Wine da Global Wine Solutions, esta preocupação com a sustentabilidade está longe de ser apenas resultado de uma mudança ética e ambiental, mas deve-se sobretudo a uma mudança de narrativa no marketing que incentiva os produtores a descreverem os seus vinhos como produtos puros, em comunhão com o solo e, portanto, livres de químicos:

“Os Millennials tendem a ser mais interessados em autenticidade do que os seus pais”. Daí que os “consumidores cada vez mais queiram saber como é que os vinhos são produzidos”, defende Steevenson.

Uma ideia também reforçada por Ed Robinson, responsável de compra de vinhos do Co-operative Group:  “Quem nos compra vinho espera que esse vinho seja obtido de forma ética, comercializado de forma justa e amigo do ambiente.”

Regiões que mais recorrem a produtos químicos

Devido a esta pressão do marketing para uma mudança no discurso, os produtores de vinho definem frequentemente a sua filosofia como “não-intervencionista”. Mas na verdade, nem sempre isto é possível. Por exemplo, a Vitis Vinifera – espécie de videira mais cultivada para a produção de vinho na Europa – devido à sua susceptibilidade a doenças, necessita de intervenção para que as uvas possam crescer de forma saudável.

Na Europa, França é o país onde esta intervenção é maior: apesar da sua área de vinha corresponder a apenas 3% dos terrenos agricolas europeus, é responsável por 20% do uso de pesticida no continente.

Fora da Europa, há mesmo cidades onde o uso de pesticidas e fungicidas nas vinhas é maior do que em qualquer outro sector agrícola, como é o caso da Califórnia. E os perigos deste uso desmensurado são reais: o uso de glifosato por exemplo, já foi associado em estudos recentes ao desenvolvimento de cancro, aumentando os riscos de saúde não só dos trabalhadores que estão nas vinhas, mas também das crianças das escolas mais próximas.

Nota: Esta foi a primeira parte do artigo. Para a semana, publicaremos a 2ª parte, na qual iremos falar dos sinais de mudança na Vinicultura em vários países do mundo e das medidas adoptadas por vários governos, incluindo em Portugal, de abordagens mais sustentáveis e holísticas que têm em conta todo o meio envolvente e sobre o que é isto da Viticultura Colaborativa e porque pode ser o futuro

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